Cherreads

Chapter 16 - Nascimento e preparativos

O primeiro ovo a rachar foi o maior deles.

A casca grossa começou a se partir aos poucos, soltando pequenos estalos secos que ecoavam pelo porão. Entre as fendas, um olho amarelo e brilhante surgiu, observando o mundo pela primeira vez com curiosidade e cautela.

Em seguida, a abertura aumentou ainda mais, até que o filhote conseguiu se libertar completamente da gema pegajosa e respirar o ar úmido do ambiente pela primeira vez.

O lagarto media aproximadamente quarenta centímetros de comprimento e quinze de altura. Seu corpo possuía uma coloração marrom-escura muito mais intensa que a de seus pais, e um pequeno par de chifres começava a crescer em sua cabeça.

Aquelas mudanças haviam ocorrido por causa da intensa energia do elemento terra. Os lagartos das montanhas eram descendentes dos dragões da terra e, ao entrarem em contato com uma concentração tão grande dessa energia, suas linhagens acabavam sendo fortalecidas.

Os demais ovos também começaram a se abrir. Os filhotes tinham, em média, vinte centímetros de comprimento e menos de dez de altura. Suas escamas eram mais claras que as do irmão mais velho, e nenhum deles possuía chifres.

Assim que saíram dos ovos, começaram a devorar as próprias cascas. Aquela era a primeira refeição das pequenas bestas.

Quando terminaram de comer, todos voltaram seus olhares para o humano.

Augusto permaneceu em silêncio durante todo o tempo, anotando cada comportamento. Por sorte, havia comprado, muito tempo atrás, um livro sobre os hábitos das bestas. Entre eles, estavam os dos lagartos.

"Grr..."

Rosnou o maior deles, encarando Augusto.

Os irmãos menores permaneceram atrás dele, confiando na força do irmão mais velho.

"Haha... que criaturas adoráveis." Sua voz assustou os menores, que se esconderam ainda mais atrás do irmão.

"Calma."

Dessa vez, sua voz carregava energia.

Os humanos haviam descoberto, muitos anos atrás, que era possível facilitar a comunicação com algumas bestas ao infundir energia nas palavras.

Os pequenos pararam e inclinaram a cabeça, curiosos. Todos possuíam grande inteligência e uma alta sensibilidade à energia da terra. Não foi difícil compreender o significado daquela única palavra.

"Eu criarei vocês. Darei comida, abrigo e segurança até crescerem. Em troca, no futuro, servirão como montarias para mim e para aqueles próximos de mim. Se recusarem..." Ele fez uma pequena pausa. "...eu matarei vocês."

Não havia segunda opção.

Os pequenos lagartos estremeceram de medo. O maior continuava encarando Augusto com clara hostilidade.

Eles não compreenderam toda a frase, mas entenderam o suficiente para saber que, se recusassem, suas vidas terminariam ali.

Augusto aguardou em silêncio.

Depois de alguns minutos, os menores caminharam até ele e começaram a esfregar seus corpos em suas pernas.

"Assim está melhor. E você, pequeno?"

O maior continuou parado, observando os irmãos demonstrarem submissão ao humano.

Buf!

Ele simplesmente se deitou e virou o rosto, fingindo não olhar para Augusto.

"Então é assim..."

A aura assassina de Augusto tomou conta do ambiente.

Os filhotes menores estremeceram e correram para perto do irmão.

"Não vou matá-lo agora. Você nasceu diferente. Por isso deixarei passar desta vez. Mas lembre-se... você será minha montaria."

Os menores cercaram o irmão mais velho, protegendo-o.

Ao ver o carinho entre eles, Augusto apenas sorriu e começou a preparar o ambiente.

Cavou dois buracos no chão. Em um deles colocou uma grande bacia com água. No outro, pequenos pedaços de carne.

Nos primeiros dias de vida, os filhotes comeriam bastante. Por isso preparou alimento suficiente para vários dias.

"Esse cogumelo não deve ser comido. Vocês precisam perceber o benefício que ele traz para este ambiente. Por enquanto, permanecerão aqui até que eu encontre um lugar perfeito para criá-los."

Os filhotes correram imediatamente para a carne e para a água. O maior permaneceu parado, observando Augusto se afastar. Somente quando o humano deixou o porão ele finalmente começou a comer.

Preciso ir à cidade. Tenho muitas coisas para vender e comprar. Também preciso visitar algumas pessoas, pensou enquanto saía de casa.

Faltava apenas um mês para o inverno. Depois que a neve caísse, seria difícil permanecer parado. Grande parte de seus planos dependia daquela estação.

Também preciso encontrar algumas pessoas para cuidar dos pequenos enquanto eu estiver fora... e preparar os regentes para os próximos passos.

Seus pensamentos continuavam acelerados quando chegou ao centro comunitário.

Antigamente, as missões eram distribuídas ali. Agora existia um prédio específico para isso.

"Bom dia, líder." A recepcionista o cumprimentou enquanto abria a porta da sala dos regentes.

"Tenho uma pergunta. Por que você não participou da criação dos núcleos junto com as outras crianças e jovens?" Ela já tinha idade para se tornar uma guerreira ou uma maga.

"Não tenho interesse. Prefiro uma vida mais simples", respondeu com sinceridade.

"Entendo. Cada um faz as próprias escolhas."

Embora ainda achasse estranho, Augusto não insistiu e entrou na sala.

"Você chegou. Queríamos conversar sobre um assunto importante", Murilo foi o primeiro a falar.

"Hum? O que aconteceu?"

"Os comerciantes passaram novamente pela aldeia, mas chegaram antes da data prevista. Disseram que uma guerra começou no norte do território humano contra algumas outras raças. Também perguntaram se nossa aldeia aceitaria novos moradores."

O território humano era dividido em diversas regiões: norte, sul, leste, oeste e centro. Além delas, existiam subdivisões como nordeste, sudeste e outras. A aldeia ficava na região nordeste, ou seja, relativamente próxima daquela guerra.

"Aceitar novos moradores pode ser uma boa ideia. Mas deem preferência a famílias pequenas vindas de aldeias menores. Além disso, investiguem a conduta de todos durante os primeiros dias."

Ele não tinha problema algum em receber novos habitantes. O importante era impedir que pessoas mal-intencionadas colocassem a aldeia em risco.

"Ótimo. Avisarei aos comerciantes para procurarem pessoas simples", Murilo respondeu.

"Minha próxima decisão também ajudará os novos moradores. Criem missões para que os soldados e líderes limpem toda a região ao sul da aldeia. Derrubem as árvores necessárias, eliminem as bestas da área e construam cercas ao redor do terreno."

Ao sul ficava a direção por onde os comerciantes chegavam. Pelo que Augusto sabia, a aldeia estava próxima da fronteira do território humano.

"Assim conseguiremos madeira para novas casas, reformaremos as antigas e ainda abriremos espaço para futuras plantações. Também avisem que esse trabalho fará parte de um treinamento. Quem descobrir o verdadeiro motivo receberá cem moedas de prata."

Seu próximo treinamento para os guerreiros seria voltado ao desenvolvimento da intenção. Ele não esperava que alguém despertasse a intenção da espada, mas aquele método lhes seria extremamente útil.

"Cem moedas de prata é muito dinheiro apenas para descobrirem o motivo do treinamento...", Moisés comentou preocupado. Como responsável pelas finanças, acompanhava de perto os gastos da aldeia. Mesmo com as trezentas moedas de ouro entregues por Augusto e com o aumento das trocas comerciais, as despesas continuavam elevadas.

"Não se preocupem com o dinheiro. Quando eu voltar, isso deixará de ser um problema."

"Voltar? Você vai sair da aldeia?", perguntou Matheus, responsável pelos recursos.

"Sim. Vou até a cidade e voltarei antes do inverno. Quando retornar, teremos muito trabalho. Estejam preparados."

"Você poderia ter avisado antes... Mas tudo bem. Resolveremos os problemas que surgirem nesse período."

"Ótimo. Ainda farei uma visita a uma pessoa antes de partir. Quando eu voltar, espero que tudo tenha corrido bem."

Seu próximo destino era a casa do garoto catarrento.

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