Ele ficou atordoado. Aquela cobra realmente olhou para ele?
Seu controle de energia era tão grande que a maioria das pessoas não sentia sua presença. E, de uma distância tão grande, a cobra conseguiu percebê-lo?
“Uma besta de núcleo laranja está em outro nível.” Falou enquanto descia da árvore.
Agora que todos tinham saído da mina, era hora de dar uma olhada em seu interior.
Dentro dela existiam inúmeros corredores. Enquanto passava por cada um, viu veias de bronze, prata e ferro.
“Esse deve ser o corredor daquela cobra.”
Era bem maior. Diferente dos outros, que seguiam para os lados, esse descia em direção ao subsolo.
Enquanto descia, percebeu uma forte onda de calor. Achou aquilo estranho. Embora as cobras gostassem de calor, aquele ambiente estava quente demais.
Ainda havia outro detalhe: aquela cobra provavelmente era do elemento terra. Se permanecesse em um ambiente tão quente, a energia do fogo seria maior que a da terra.
“Isso está errado.” Disse ele, com gotas de suor escorrendo por todo o corpo.
“Vamos ver como está a energia do ambiente.”
Sua concentração chegou ao pico.
Normalmente, a energia do fogo era menor. Apenas em lugares como vulcões ela superava os outros elementos.
28% de fogo e 33% de terra.
Os demais elementos dividiam a porcentagem restante. O mais estranho era que a energia do fogo parecia ficar mais intensa a cada segundo.
“Então o frio não era o único motivo que fazia as bestas irem embora.”
Se o calor já estava assim agora, imaginava como estaria dali a alguns dias.
‘Existe alguma coisa lá embaixo causando esse calor.’
Pensou enquanto subia o corredor. Seu corpo estava cansado da viagem, e ele poderia investigar aquele lugar mais para frente.
Ao sair da mina, não demorou muito para chegar à aldeia.
Em um pequeno porão, quatro jovens refinavam seus núcleos. Um deles emitia um brilho vermelho-escuro.
Oito pequenos lagartos estavam comendo. O maior já media noventa centímetros de comprimento. Sua altura, porém, não havia aumentado muito, chegando a apenas vinte centímetros.
Os outros sete tinham cerca de cinquenta centímetros de comprimento e quinze de altura.
Todos pareciam viver bem e em harmonia.
“Vejo que todos fizeram progressos.” Uma voz chamou a atenção.
Augusto estava parado na entrada.
“Líder da aldeia!”
Os jovens se levantaram e correram até ele.
Álvaro já tinha alcançado o vermelho-escuro. Os outros três estavam no alto nível do preto.
‘Impressionante. Os outros mal devem ter chegado ao nível médio ainda.’
Pensou enquanto olhava para o cogumelo.
Uma planta espiritual fortalecia a energia elemental, trazendo benefícios para aqueles que possuíam o mesmo elemento.
Mas era preciso tomar cuidado com sua vida útil. Se não fosse consumida ou guardada em um anel espacial, ela seria perdida para sempre.
‘O cogumelo ainda tem mais alguns meses de vida.’
Pensou enquanto observava os lagartos.
“Vocês cresceram.”
“Kyu, kyu!”
Os lagartos, já acostumados com a presença dos humanos, correram até ele.
O maior apenas o encarou antes de virar o rosto.
“Se você concordar em se tornar minha montaria, deixo você comer o cogumelo no futuro.” Falou, brincando com o grandão.
O lagarto olhou para o cogumelo e depois para Augusto. Após alguns segundos de conflito interno, virou a cara novamente.
‘Está se fazendo de difícil... ótimo.’
Pensou.
“Você não pode fazer isso, líder. Esse cogumelo é muito importante para nós.” Um dos jovens falou.
“Existe um limite para o tempo que esse cogumelo pode permanecer vivo. Aproveitem os próximos meses. Isso não continuará para sempre.”
Ele não se importava com a opinião deles, mas era importante que entendessem que aquele ambiente perfeito não duraria para sempre. Isso faria todos treinarem ainda mais.
“Parabéns, Álvaro. Você é o primeiro mago da aldeia a alcançar o núcleo vermelho-escuro. Como líder, vou recompensá-lo com dez moedas de ouro. Continue trabalhando firme.”
Seu discurso tinha dois objetivos: fazer os outros magos se empenharem ainda mais e incentivar Álvaro a continuar evoluindo.
“Incrível.” Disse um dos jovens, cheio de inveja.
“Parabéns, Álvaro.” Comentou outro.
“Parabéns.” Disse o último, triste por ter perdido aquela oportunidade.
“O-obrigado, pessoal... Obrigado, líder.”
Álvaro tremia. Aquele dinheiro mudaria a vida de sua família.
“Trabalhem duro também. Vocês receberão recompensas no futuro, embora não sejam como a de Álvaro.” Disse, tentando animar os outros.
“Sim, líder.”
Os três responderam e logo fecharam os olhos para continuar refinando os próprios núcleos.
“Estou saindo. Fiquem à vontade.”
Ele passou a mão acariciando os pequenos lagartos antes de deixar o porão.
A aldeia havia mudado um pouco. As casas estavam recebendo madeiras novas, as roupas dos moradores eram melhores, e as trocas comerciais estavam ficando cada vez mais vantajosas.
“Oh, o líder da aldeia voltou!” Gritou uma velhinha sentada em uma cadeira de balanço.
Todos olharam para um jovem de cabelos curtos e castanhos caminhando em direção ao centro comunitário.
“É realmente ele. Os novos moradores finalmente poderão conhecê-lo também.” Comentou um senhor.
Os refugiados do norte haviam chegado.
“Estou entrando.”
Augusto falou ao entrar na sala dos regentes.
“Sua viagem foi tranquila?” Perguntou Murilo.
“Com certeza.”
“Ótimo. Temos algumas informações para te passar.” Disse Moisés enquanto organizava alguns papéis.
“Me contem tudo.”
Ele se sentou em uma cadeira.
“Primeiro, e mais importante, os refugiados chegaram. Foram duzentas e oitenta e sete pessoas no total. Entre elas havia alguns guerreiros, porém todos são vermelho-escuros. Como vieram de pequenas aldeias como a nossa, a adaptação está acontecendo sem problemas.” Disse Matheus.
“Além disso, as missões para abrir caminho na floresta estão funcionando muito bem. Graças a isso, temos madeira suficiente para construir novas casas e reformar as dos antigos moradores.”
“Outra notícia importante é que três novos guerreiros vermelhos apareceram. As missões ficaram ainda mais seguras. No máximo alguns feridos têm aparecido recentemente.”
“No momento, estávamos nos preparando para ir até a mina verificar se as bestas realmente partiram.”
“Não precisa. Eu passei por lá e já confirmei isso. Amanhã passarei um novo treinamento para os guerreiros. Depois de amanhã, começaremos o processo de mineração.”
“Ótimo. Avisarei as mineradoras para descansarem melhor amanhã.” Disse Moisés.
“Também tenho planos para a mina. Esses dois meses de inverno devem ser suficientes para nos prepararmos e retomarmos a mina das bestas.” Ele falou calmamente.
Os três regentes se entreolharam e suspiraram. Aquele líder realmente gostava de dizer coisas loucas.
“Vamos discutir isso melhor com o passar do tempo. Não precisamos ter pressa.” Comentou Murilo.
“Pelo visto, vocês não precisam da minha ajuda para resolver nenhum problema. Façam um anúncio para os guerreiros. Amanhã nos encontraremos na entrada da aldeia. Quero ver se algum deles será capaz de ganhar as cem moedas de prata.”
Os regentes eram competentes, e a aldeia não havia enfrentado nenhum incidente que exigisse sua participação. Por isso, Augusto deixava toda a burocracia de relatórios, criação de missões e administração para eles.
“Antes de ir embora, os comerciantes disseram que mais refugiados podem ser enviados.” Falou Moisés.
“Não. Se aceitarmos agora, eles enviarão ainda mais pessoas, e não teremos tempo para construir casas suficientes. Diga que talvez, depois do inverno, possamos aceitar mais gente.”
Respondeu enquanto saía da sala.
Era bom aumentar a população da aldeia, mas fazer isso durante um inverno tão movimentado não seria uma boa ideia.
Algumas pessoas poderiam acabar morrendo de frio por falta de abrigo. Além disso, eles ainda precisavam calcular a quantidade de alimentos necessária para sustentar todos.
“Hum.”
Ele viu um floco de neve cair.
“Você chegou, querido inverno.”
